Para o Sr. prefeito de Belém Edmilson Rodrigues;

Venho através deste documento estimular o debate sobre a importância dos espaços públicos serem ocupados de múltiplas formas, sem definições e limitações.

Alguns dias atrás vi um post no Instagram que o sr. falava em construir “uma das mais bonitas praça de skate do mundo” e fiquei pensando muito sobre importância da região amazônica ter um espaço com esse título, indo além, um título que - ainda mais ambicioso - possa ser "A CIDADE skatável".

Sim, é possível.

A forma que o skate se configurou ao longo do tempo foi sair gradualmente de campeonatos e seguindo para a exploração cultural e artística ao redor do mundo. O que movimenta uma cena é o investimento em inclusão cultural e estímulo a produção artística urbana. A descriminalização de práticas e ocupações de espaços.

 

Vídeo do videomaker Marcos de Souza na Amazônia.

Viagem da Skateboarding Mag para Belém em 2010

Padrão e padronização, a forma estacionária:

A formatação primária de uma pista de skate é um espaço retangular com piso concretado e formas geométricas para prática de “esporte”. Todos ficam ali, fechados.

Não existe nenhum demérito nessa arquitetura e a prática justificará a construção. É a forma óbvia de se fazer.

A pista de skate é importante, estimula a prática, mas a construção de pistas não pode limitar o uso da cidade pelo skatistas, não pode ser usadas de argumento para a proibição em lugares públicos.

Entendo também que o poder público precisa de "símbolos concretos" para sua campanha e publicidade, a produção de imaterialidade cultural não produz estímulos visuais para o currículo de uma gestão.

“Rebeliões são importantes porque mostram que outra sociabilidade é possível.”

 David Harvey

 

A cidade que absorve:

A integração dos compartimentos urbanos são muito importantes para que a cidade se mova, como o ballet das calçadas de Jane Jacobs. É muito importante sair dessa forma fechada e criar espaços que não sejam apenas uma pista de skate mas seja um lugar de uso, seja a cidade em si. Um espaço que sirva para o passeio dos namorados, das bicicletas, descanso de trabalhadores e dos skatistas. Exemplo de Copenhagen:

A ideia seria incluir artistas/skatistas que façam monumentos skatáveis e integrar uma praça que oficialmente POSSA ANDAR DE SKATE como qualquer praça deveria ser. Como já disse antes, descriminalizar a práticas e ocupações de espaços.

Espaços que possuem bordas, transições, vãos, chão liso já é a pista do skatista. Façam praças para andar de skate, monumentos skatáveis, isso é muito mais interessante pra circulação das veias de uma cidade. A prática urbana é a junção dos materiais com o imaterial.

Obra do artista brasileiro Renato Custódio.  Córdoba, Argentina

 

O skatista e documentarista, Murilo Romão mostrou em seu filme "Valeros" a importância da luta pelo espaço público pensando no uso, quando no projeto do Novo Anhangabaú não se pensou no skate como importante integrante no pensar a cidade e junto com o arquiteto Rafael Murolo e o coletivo Flanantes redesenharam o projeto para manter a memória de uma espaço histórico para o skate brasileiro.

“Sempre onde as sociedades floresceram e prosperaram, em vez de estagnar e decair,

as cidades criativas e viáveis ​​estiveram no centro do fenômeno.”

  • Jane Jacobs

 

Um exercício imaginativo do skate como objeto artístico:

Imagine um polvo, um núcleo com vários tentáculos que se espalham, agora imagine a sombra desse polvo na cidade, com esse exercício de imaginação que sugiro o desenvolvimento de um projeto, espalhar em cada canto da cidade lugares que sejam interessantes para se andar de skate. Uma borda curva na Doca, uma transição na Praça Magalhães, um núcleo mais complexo na Waldemar Henrique, um palco no Ver-o-peso, formas geométricas na praça do Carmo e com esses exemplos podemos imaginar um roteiro que faz as pessoas andarem pela cidade.

Todos os projetos urbanos devem contemplar o skate como usuário. 

O skate é alimentado por imagens. Muito fotógrafos e cineastas vieram da produção de imagens do skate na cidade e isolar essa prática é matar a parte mais importante que o skate possui, o skate como objeto artístico cultural.

 

Convido o Sr. para assistir o documentário que dirigi sobre o tema, segue uma pequena parte:

Conclusão e desafios:

Os desafios para uma gestão urbana em meio a urgência de uma pandemia são enormes e todo esse projeto acima parece utópico  nas acredito que o compartilhamento de ideias é o melhor caminho para um debate mais amplo e uma cidade mais agradável.

Obrigado.

Shinji Shiozaki. - São Paulo, 05 de Janeiro de 2021

@sjshiozaki

“A utopia está lá no horizonte.

Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.

Caminho dez passos, e o horizonte corre dez passos.

Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.

Para que serve a utopia?

Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

  • Eduardo Galeano